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Folhetim

Um Natal inesquecível

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Publicado em 24/12/2008 pelo(a) Wiki Repórter Lorena Lee, São Paulo - SP



Uma história de muitos Natais. - Foto: web

Em busca de uma nova vida, o casal Eduard e Klëid apostara todas as fichas no Fliegender Adler. Do navio, no entanto, não saíriam com vida. No sofrimento da morte iminente, Eduard conseguiu apenas passar a responsabilidade da filha ao amigo Franz Höltz. Entre 1918 e 1934, chegaram ao Brasil mais de 80 mil alemães. Para estes, que fugiam da instabilidade da República de Weimar, o Brasil representava a "terra prometida". Contudo, o Brasil seria bem mais do que isso diante dos horrores protagonizados por Hitler e que em pouco tempo iriam chocar o mundo.

Durante a década de 30, houve um aumento significativo do número de empresas alemãs no Brasil. Havia imigrantes nas mais diversas profissões: oficiais do exército, autonômos e acadêmicos, burgueses arruinados, camponeses, operários, militantes políticos, tanto de direita como social-democratas, anarquistas e comunistas. Não faltaram professores, comerciantes e até ex-funcionários das antigas colônias alemãs na África. Nessa época, viviam no Brasil cerca de 100 mil alemães. Franz e Margie decidiram juntar-se a um grupo de amigos que chegara ao Brasil um ano antes e instalara-se em São Roque. Iriam trabalhar na plantação de uvas, algo completamente novo para o casal de professores de línguas estrangeiras. Mas estavam dispostos a recomeçar, afinal, haviam se casado há poucos meses e seguer tinham filhos.

De Santos a São Roque, a viagem fora bem longa. A pequena Maria estava muito doente, tanto que o casal estava certo de que ela não chegaria ao interior de São Paulo com vida. Mas chegou. Sem dinheiro, comida e sem ter onde ficar ao certo, com muita dor no coração, o casal decidiu procurar um abrigo para a menina. Foram até a farmácia na esperança de arranjar um remédio e se informar. Seu Antônio fora um anjo com eles.

- Olha, dei alguns remédios para a garotinha, mas se ela não receber cuidados constantes para se fortalecer, morrerá em pouco tempo.

- Por acaso, o senhor conhece algum abrigo onde possamos deixá-la temporariamente? O pai, antes de morrer, nos confiou a guarda de Maria. Gostaríamos muito de adotá-la, mas não temos condições no momento...

- Eu conheço um pequeno orfanato, sim. É administrato por freiras, tudo muito certinho e organizado. Porém, ouvi dizer que devido a chegada de muitos imigrantes falidos, o orfanato não tem mais vagas.

- Vamos tentar, disse Margie confiante.

Ao abrir a porta do Orfanato Santa Clara, Irmã Teresa tinha um semblante sério, porém cordial.

- Bom dia, viemos da Alemanha, adiantou Magie com um sotaque bem carregado. Precisamos deixar esta menina doente aqui. Seus pais morreram na viagem e nós não temos condições de ficar com ela. Ainda mais doente do jeito que está...

- Sinto muito, mas não podemos recebê-la. O lugar está lotado.

Margie e Franz viram o grande portão de ferro fechar diante deles com lágrimas nos olhos. Maria estava com muita febre e chorava de dor. No meio do desespero, Franz teve uma idéia.

- Voltaremos à noite e a deixaremos no portão. Vamos arrumar uma caixa para fazer um bercinho e ajeitá-la com algum conforto. É nossa única opção.

- Está bem. Vou orar para que Deus toque o coração da madre superiora nesta noite.

E assim o fizeram. Franz dera um beijo carinhoso na testa de Maria antes de colocá-la na cama improvisada, juntamente com um bilhete narrando sua breve vida. Margie, a dois quarteirões dali, soluçava de tanto que chorava; se apegara muito a menina durante a viagem. Franz tocou a companhia e saiu em disparada. Nunca mais tiveram notícias de Maria.

Ao completar três anos, a pequena Maria - agora o xodó das freiras - recebera o sacramento do batismo. Em homenagem a santa protetora da instituição, fora batizada como Maria Clara von Wunder. A linda menina era uma tagarela, extremamente obediente e carinhosa. Os dias no orfanato não eram fáceis e estavam cada vez mais difíceis. As irmãs, muitas vezes, deixavam de fazer refeições para sobrar comida para os menores. Clarinha, como a chamavam, crescera neste cenário de privação, contudo, sem nunca reclamar. Podia não ter roupas e brinquedos, mas era cercada por muito amor e afeto.

No verão de 1947, Clarinha não cabia dentro de si de tanta felicidade. Iria completar 15 anos. A madre superiora havia lhe prometido um presente: uma boneca. Clarinha nunca havia tido uma boneca "de verdade" durante toda a vida. Ela própria fizera algumas bonecas de pano. Mas seu sonho eram aquelas bonecas de porcelana que via nas vitrines das lojas quando ia à cidade fazer compras de mantimentos com as irmãs. Sequer havia tocado em uma daquelas bonecas. Estava ansiosa por demais.

Acordou cedinho, às 6h. Tomou banho, fez suas orações matinais e desceu as escadas rapidamente. Estava lá, em cima da mesa de refeições, uma caixa comprida, embrulhada num papel brilhoso de flores e com um grande laço de fita vermelho. O cartão trazia uma mensagem muito bonita de aniversário, escrita por Madre Teresa. Clarinha abrira com cuidado o pacote. Não queria rasgar o papel. Abriu a caixa, já com lágrimas nos olhos. Era a boneca mais linda que já vira. E era toda sua. Guardou a caixa, a fita e o papel na cômoda da sala e saiu feliz como nunca para mostrar o presente para as amiguinhas.

Como elas brincavam nas balanças do jardim da frente, Clarinha foi em direção à escadaria lateral. Com um sorriso largo no rosto e a boneca ajeitada como um bebê no braço esquerdo. Acenou para as amiguinhas e, neste momento, tropeçou e caiu. A tão esperada boneca de porcelana durara apenas cinco minutos nos braços de Clarinha. Com a queda, sua cabeça quebrara-se em vários pedaços. Foi assim que aquele que seria o dia mais feliz da vida de Clarinha, transformara-se numa grande tristeza.

Ao ouvir os primeiros acordes da marcha nupcial, Clarinha achara que seu coração fosse parar de tanta alegria. Estava com 18 anos e seguia a passos incertos o caminho que a levaria ao altar. Rubens era um moço alto, forte e trabalhador. Era filho do dono da mercearia. O casamento fora arranjado pelas freiras, que estavam de malas prontas para uma missão na Amazônia. As 30 crianças do orfanato já estavam encaminhadas, haviam sido adotadas ou formado família. Clarinha era a última. Considerada a "filha" mais nova, fora cercada por todos os cuidados até o dia do matrimônio.

Após dois anos de casada, engravidara finalmente. O casal vivia um casamento muito harmonioso e a chegada de Carlinhos fora uma dose a mais nesta felicidade. Estavam muito bem de vida; Rubens era dono de uma rede de supermercados.

- Na noite que precedeu o meu nascimento, disse Carlinhos a Maria, meu pai sonhou com muitas crianças brincando de roda. E este sonho perdurou por uma semana. Um dia, enquanto minha mãe me amamentava, meu pai começou contar os sonhos da semana anterior.

Maria sentira seu coração desparar e um arrepio nos braços:

- Rubens, eu tive os mesmos sonhos enquanto estava no hospital. Agora eu sei exatamente o que significam. Estas crianças serão as que iremos criar juntamente com Carlinhos. Deus nos está dizendo que a chegada de nosso filho de sangue, anuncia, também, a chegada de nossos filhos e filhas do coração.

- Foi assim, Maria, que meu pai e minha mãe construíram o Orfanato Anjinhos de Luz.

- Nossa, Carlinhos, que história incrível.

Daquele noite em diante, nunca mais Carlinhos separou-se de Maria. Passaram a sair com frequência. Num dessses encontros, já noivos e prestes a se casar, Maria se abriu com Carlinhos. E começou a contar sua infância, até então um mistério.

- Não conheço meus pais, Carlinhos. Fui adotada aos três anos de idade por um casal de advogados famosos da capital paulista: Carolina e Gabriel Couto do Prado. Mas, quis o destino, que eles fossem embora muito cedo. Estávamos indo para uma temporada de férias em Búzios quando sofremos um acidente de carro. Eu nada sofri, mas meus pais não resistiram.

- Nossa, que chato. Quantos anos você tinha? O que aconteceu depois disto?

- Eu tinha 14 anos. Éramos muito bem de vida e eles tinham muitas posses. Eu era a única herdeira. Eles deixaram um testamento no qual recomendavam ao meu tutor que me internasse num colégio interno de Paris caso acontecesse algo com eles. E foi o que aconteceu. Só voltei para o Brasil após me formar, como era o desejo deles.

Alguma coisa nesta história intrigou Carlinhos. Aqueles nomes.... Mas logo vieram os preparativos para o casamento e a vida fora uma loucura até o momento do "sim". Passado algum tempo, a história dos pais de Maria lhe veio à mente. Carlinhos, após muito refletir, e decidira ouvir sua intuição. Estava de folga naquela sábado; Maria havia ido ao salão de beleza e ele estava mesmo com tempo livre. Foi até o escritório montado na edícula da casa onde moravam. No canto da sala principal, as últimas gavetas do grande arquivo guardavam toda a documentação do Orfanato Anjinhos de Luz. Carlinhos começou a checar pasta por pasta. Dona Clara decidira seguir o mesmo padrão que viveu na infância, no orfanato Santa Clara: a instituição teria sempre 30 crianças, independentemente de sexo. Assim, dizia, poderiam receber mais atenção e conforto. Para cada uma das crianças, um diário registrava desde as primeiras horas na instituição.

Após olhar mais de 40 pastas e já quase vencido pelo cansaço, Carlinhos abrira uma nova pasta. Suas pernas ficaram bambas ao ver os nomes Carolina e Gabriel Couto do Prado. Fora, então, confirmada sua intuição: Maria era aquela menina loirinha, de cabelos cacheados que vivera no orfanato de sua mãe menos de um ano. Carlinhos, quase cinco anos mais velho do que Maria, lembrava-se muito bem da sua imagem. Uma menina arteira e de sorriso fácil. Recordara também o dia de sua partida, especialmente pelo carro do homem que fora lhe buscar. Um Landau como nunca vira antes. Como poderia esquecer aquela cena? Impossível.

Às vésperas do Natal, Carlinhos teve uma idéia. Reuniu os documentos e o diário. Mandou encadernar tudo. As fotos que encontrou, mandou fazer uma montagem ampliada e providenciou um grande quadro para dar a Maria de presente de Natal.

Na noite de 24 de dezembro de 2007, a iluminada árvore de Natal do casal tinha em sua base algumas caixas de presentes e dois envelopes. Carlinhos pegou um deles:

- Maria, acho que este é o melhor presente que você poderia receber nesta noite.

- Que concidência, meu amor! Eu tenho aqui um envelope para você e também acho que este é o melhor presente que você poderia receber hoje. Abra primeiro!

Emocionado, Carlinhos abriu afoito. E logo entendeu.

- Meu Deus!!! Finalmente, você está grávida. E.... Nossa!!! Não posso acreditar... de gêmeos????!!!

- Sim, meu amor. Gêmeos!

Carlinhos, já não contendo as lágrimas, entregou um grande envelope a Maria.

- É o meu registro de entrada no... Orfanato Anjinhos de Luz???!!!

O pranto tomou conta de Maria e Carlinhos. Era muita emoção para uma noite só. Foi então que Maria conseguiu entender o grande amor que sentia por Dona Clara. Afinal, fora ela que a recebera ainda um bebê, vestida com apenas alguns trapos e o corpo cheio de feridas. Dona Clara havia lhe curado todas as chagas físicas e emocionais. Mais. Conseguira também um maravilhoso lar para a menina. Que viveu longe muito tempo, mas que nunca desfez os laços do coração.

Enquanto refletia em meio a um turbilhão de sentimentos, Maria vê Carlinhos entrar na sala com um enorme pacote nas mãos.

- É para você!

Ao abrir o pacote, a emoção foi incontrolável. Na pasta de fotos do orfanato, Carlinhos descobrira várias que mostravam a pequena Maria. Em uma delas, Dona Clara estava sentada em seu sofazinho da sala de TV com Maria no colo e todas as crianças do orfanato ao seu redor. Ao fundo, uma árvore de Natal.

- Meu Deus, é a foto do porta-retrato da sala de TV. Durante 10 anos, essa foto me chamou a atenção, mas nunca soube o porquê.

- Pois é, Maria, como dizia Dona Clara, no momento certo você iria saber de tudo. Esse momento, finalmente, chegou. E, como tudo em nossas vidas, pelas mãos divinas do destino.

- Carlinhos, agora, finalmente, entendo que a minha missão sempre foi esta. Foi o caminho que meu espírito escolheu antes mesmo que eu chegasse na Terra. E dou graças a Deus por não ter me desvirtuado. Estive por muitos anos em terras distantes, mas voltei. Na verdade, sinto que nunca sai daqui!

Seis meses depois, em junho de 2008, nasceram os gêmeos.

Francisco e Clara terão hoje sua primeira noite de Natal, ao lado dos pais e dos 30 irmãos do coração.

Um Feliz Natal a todos!!!

Lorena Lee


* Esta é uma história de ficção, baseada em fatos reais.




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