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Folhetim

Na fuga, a morte em duplicidade

1178 acessos - 0 comentários

Publicado em 23/12/2008 pelo(a) Wiki Repórter Lorena Lee, São Paulo - SP



A queima de livros promovida por Hitler foi manchete em todos os jornais da época. - Foto: web

O relógio marcava 19h quando Oliver finalmente fechara um artigo para um suplemento de cultura de domingo do Deutche Illuftríerte. O dia havia sido corrido na redação. Mas a matéria o deixara bem empolgado. Na segunda-feira, dia 1º de abril, seria a pré-estréia de O Anjo Azul, de Josef von Sternberg. O filme trazia no papel principal uma ainda desconhecida atriz: a berlinense Marlene Dietrich. Oliver conseguira uma entrevista com a bela e foi justamente isto que o deixou mais encantado. Só no mercado negro ainda havia ingressos para a estréia, na terça. Mas o jornalista ganhara quatro ingressos das mãos da própria Marlene. Estava exultante. Ligou para a namorada e a convidou. Combinaram de chamar também o amigo de Oliver, Eduard e uma amiga de longa data de Anette Maria: Klëid. Ambos estavam solteiros e a idéia era mesmo apresentá-los.

O Anjo Azul
despertou polêmica antes mesmo de ser lançado. Oliver, como um jovem jornalista apaixonado pela profissão, não poderia deixar de assisti-lo. Era baseado na obra Professor Unrat, de Heinrich Mann e roteiro de Carl Zuckmayer. Até o último momento, circulvam boatos de que a exibição do filme não seria autorizada. O enredo falava de tragédia e degradação, um tema altamente suspeito para a época, com o nazismo em plena ascensão.

- Eduard, há quanto tempo?! Como vai?

- Estou ótimo. Peguei mais algumas aulas de Literatura Alemã, na Universidade de Berlim. Estou muito feliz!
 
- Que satisfação, amigo! Mas gostaria que conhecesse Klëid, uma bela jovem, filha de imigrantes suecos.

Eduard sentiu a face enrubescer. A moça tinha o rosto mais angelical que já vira. Longos cabelos castanhos claros lhe caíam em cachos abaixo dos ombros. Seus olhos amendoados e cor de caramelo transmitiam ternura e, ao mesmo tempo, vivacidade. Klëid fitou meio sem jeito o rapaz:

- Muito prazer, jovem, cumprimentou Eduard.

- O prazer é meu! Estou apreensiva para assistir ao filme. E você?

- Eu também, claro. Na universidade, não se fala de outra coisa. Aliás, você poderia nos contar mais sobre a história, Oliver?

- Claro. E, lembrem-se, amigos, o enredo do filme me foi revelado na íntegra por ninguém menos do que Marlene Dietrich...

- Desculpe, mas quem é essa, Oliver?!

- Meu caro, grave bem o que diz seu amigo jornalista: Marlene Dietrich será uma das maiores estrelas do cinema europeu. Ela é demais. Que minha namorada me perdoe, mas quando ela levanta aquelas sobrancelhas... derrete corações.

- Não vou esquecer, mas conte sobre o filme enquanto esperamos aqui na fila...

- Está bem, querido. Eu não ligo!

- Eu sei, meu amor. Bom, resumindo, senão perde a graça, a história gira em torno da descoberta do severo professor Unrat (Emil Jannings) de que alguns de seus alunos seus freqüentavam habitualmente o cabaré Anjo Azul. E lá a atração principal era Lola-Lola (Marlene Dietrich). Para puni-los, o mestre decidiu ir até à casa de espetáculos. Contudo, foi agarrado pelas mãos do destino ao deixar-se envolver pela sensualidade da cantora que, pouco a pouco, acaba por destruir sua vida.

- Nossa, que cilada, disse estarrecida Anette Maria.

- O filme, sem dúvida, tem um tom bem ousado para 1930, por isso despertou tanta curiosidade e polêmica, ressaltou Oliver.

O encontro promovido por Oliver e Anette deu mesmo certo. Eduard e Klëid engataram um namoro firme. Exatamente um ano depois estavam casados.

O casal Eduard Ferdinand von Wunder e Klëid Katz von Wunder estava exultante. Comemoravam as primeiras palavras e os passinhos ainda receosos da pequena Maria. Nascida em janeiro de 1932, a menina, prestes a completar 1 aninho, recebeu o nome em homenagem a melhor amiga do casal. Aliás, Oliver e Anette Maria foram os padrinhos de batismo de Maria. Eduard e Klëid sentiam a vida sorrir para eles. A carreira de professor universitário de Eduard estava muito bem encaminhada e Klëid cuidava com esmero da bela casa recém-comprada.

Não se cansavam de comentar com os amigos que a década de 30 seria inesquecível para a família, que estavam vivendo um momento de plena realização. O que não esperavam, porém, é que, de fato, a década seria inesquecível, sim, e não só pra eles. Alemanha nunca mais seria a mesma depois disto. O mundo não seria o mesmo. Em janeiro de 1933, o nazista Adolf Hitler assumiu o poder na Alemanha. Muito pouco tempo depois, a Europa via nascer um sistema ditatorial sem precedentes, caracterizado pela repressão desmedida, pela perseguição aos judeus e pela expansão militar e territorial.

O mês de maio de 1933 marcou o auge da perseguição dos nazistas aos intelectuais, principalmente aos escritores. Hitler promoveu o que chamou de grande "limpeza" da literatura alemã: tudo o que se desviasse dos padrões impostos pelo regime nazista fora destruído. Centenas de milhares de livros foram queimados. Albert Einstein, Stefan Zweig, Heinrich e Thomas Mann, Sigmund Freud, Erich Kästner, Erich Maria Remarque e Ricarda Huch foram algumas das proeminências literárias alemãs perseguidas na época. O jovem professor Eduard ficou completamente arrasado.

A opinião pública e os intelectuais alemães ofereceram pouca resistência à queima das obras. O escritor Thomas Mann, Nobel de Literatura em 1929, e amigo pessoal de Eduard, foi um dos poucos a levantar a bandeira da resistência. Ambos passaram a ser fortemente perseguidos e ameaçados de morte. Em 1933, ele emigrou para a Suíça e, em 1939, para os Estados Unidos. Recomendou a Eduard que fizesse o mesmo para preservar a família. Sem ter onde mais se esconder, Eduard conseguiu arrumar a mudança. Juntamente com alguns amigos, montou um plano de fuga.

Eduard sabia que a viagem para o Brasil não seria nada fácil, ainda mais nas precárias condições que lhe foram oferecidas no navio Fliegender Adler. Mas seria a salvação de sua família, estava certo disto. Entretanto, no meio da viagem, o inesperado:

- Eduard, não estou me sentindo muito bem hoje. Poderia preparar o leite da pequena Maria, por favor? Quero descansar mais um pouco...

- Claro, minha querida. Vou fazê-lo neste instante.

Eduard pegou Maria nos braços e seguiu em direção à cozinha. Não sabia, porém, que aquela seria a última vez que ouviria a doce voz de sua amada esposa. Quando retornou com a menina, percebeu que Klëid ainda estava deitada e lhe estendeu a mão. Klëid a segurou, já sem muitas forças... balbuciou duas palavras e fechou os olhos para a eternidade.

- Te amo, Eduard....

O navio era um lugar de proliferação de doenças devido ao grande número de pessoas e, principalmente, à falta de higiene comum nessas embarcações. Eduard não sabia, mas o navio Fliegender Adler fora atingido por um surto de tifo, doença que vitimou sua esposa. Três dias depois, e ainda extremamente abalado com a morte de Klëid, Eduard acordou banhado de suor. A febre de 40 graus maltratava seu corpo, já sem forças. Eduard, vendo dezenas de pessoas desfalecidas no porão do navio, chamou seu amigo Franz Höltz e lhe fez um último pedido:

- Franz, meu amigo, sei que não vou escapar desta maldita doença, assim como minha querida Klëid. Por isso, vos peço encarecidamente: cuide da minha Maria, arranje um lar para a menina quando chegarem ao Brasil. Estou certo de que ela não será atingida pelo tifo, pois tenho certeza de que Deus tem uma missão muito grande para ela realizar.

- Claro, amigo. Eu e Margie vamos providenciar isto. Mas você não vai morrer, fique tranqüilo!

Naquela noite, Eduard deu seu último suspiro abraçado ao corpinho frágil da pequena Maria.

Em 1934, o Fliegender Adler ancorava no Porto de Santos, em São Paulo. O casal Margie e Franz dava os primeiros passos em solo brasileiro cheio de incerteza. A dúvida atormentava o casal e doía como uma faca encravada no peito: o que iriam fazer com Maria?


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Lorena Lee
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