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Cotidiano

O CUPIDO

510 acessos - 2 comentários

Publicado em 28/01/2012 pelo(a) Wiki Repórter Dourovale, Carapicuíba - SP



Eu admiro aquelas pessoas que acordam no primeiro toque do despertador (seja ele celular, rádio-relógio ou aquela coisa antiga que faz tic-tac). Sempre precisei de mais cinco minutos e mais cinco minutos depois dos cinco minutos e a coisa se repete assim por algum tempo. Minha mãe ficava nervosa de tantos cinco minutos a mais que eu pedia e eu sempre levantava quando ela, irritadíssima, avisa que não iria me chamar mais e que se eu perdesse a hora era problema meu. Só quando ela não me acordava mais é que eu soube que ela começava a me chamar quase uma hora antes, pois sabia que eu iria demorar pra acordar (mãe é sempre mãe). Mas nem todas as mulheres são compreensivas assim (lembro de uma vez fui jogado da cama ao pedir cinco minutos).

Essa coisa de acordar é realmente, no meu caso, um tanto quanto complicado. Houve uma época que eu, ao acordar, precisava primeiro me lembrar onde eu estava, qual o caminho eu teria que fazer daquele lugar pro serviço, se era dia de folga ou de trabalho, a que horas eu batia o ponto e, só depois de tudo isso, tentar perceber se eu já havia perdido a hora ou ainda dava pra cochilar mais uns cinco minutinhos.

Pois é! Pois é! Pois é!

Mas isso não é uma dificuldade só minha, nem só dos da mesma espécie que eu. Não! A coisa é mais ampla.

O cara se chama Adolfo e ganha a vida sendo cupido. Como ainda não é anjo, o salário não é essa coisa fantástica que muitos acreditam. Trabalhar no céu tem seu status, dá pra fazer uma graça com as meninas, mas nem sempre compensa financeiramente. Pra ganhar uns trocados a mais, Adolfo, nos dias de folga, trabalha como eventual pro cara da oposição e sacaneia aqueles que ele uniu nas horas do trabalho oficial.

Só que mesmo fazendo esses bicos, o Adolfo não conseguiu ainda comprar suas asas próprias. Depende do transporte coletivo pra ir pro trabalho. É comum na volta conseguir carona com um anjo, mas ele tem que agüentar o cara contando as vantagens que há em ser anjo, quase um santo.

Adolfo precisa acordar cedo pra chegar no horário. Cupido, quando perde à hora, além de ouvir o blábláblá do Chefe reclamando, aumenta o próprio serviço, pois se a destino marcou uma hora para que duas pessoas chegassem a um mesmo lugar e fossem flechadas pelo tal arqueiro do amor e o bendito cupido não está lá... você não tem idéia como é reprogramar tudo. Outro dia a Leiliane me falou que um cupido foi mandado embora por incompetência. Pensei até que fosse o Adolfo. Será que foi ele?

O Adolfo é bom profissional, como todo bom lusitano. O que o lhe atrapalha é a falta de condução própria e esse negócio de precisar de cinco minutos a mais pra acordar.

Este mês ele já havia se atrasado umas quatro vezes, perdeu não sei quantas folgas pra repor isso e, é claro, já sentia os Olhos do Chefe em todo lugar em que estava. Sentia-se vigiado, no paredão, só que sem nenhuma chance de ganhar qualquer milhão. O pior foi numa sexta-feira. Além de perder a hora, o Adolfo esqueceu o arco em casa. Só se deu conta do esquecimento quando já estava na terra. Chutou viaduto, bateu várias vezes a cabeça no chão pra tentar se punir, como se isso resolvesse. Teria sido melhor gastar suas energias fabricando um arco improvisado.
Assim como os pratos bem temperados precisam de sal e pitadas de açúcar, ou o contrário; todo azar também tem lá sua pitada de sorte. O casal que Adolfo precisava flechar ainda estava no local e iria ficar lá por um bom tempo. Agora o cupido só precisava achar um jeito de enfiar aquelas pontas de flecha neles sem usar o arco esquecido.

Com todos os equipamentos é fácil, basta mirar a nuca. Mas cupidos são fracotes e baixinhos e acertar a nuca jogando a flecha com a mão é uma coisa um tanto quanto difícil.
Só pra gente se situar, estamos numa lotada agência bancária.

Ele se posicionou como se fosse mais um na fila e ficou logo atrás do alvo masculino. Adolfo gostar de ler livros não oficiais, quase proibidos, e num deles ele leu que a flecha acertando o homem na bunda causa o mesmo efeito de acertar na nuca. Era isso que ele iria tentar.
O procedimento operacional dos cupidos diz que a única parte do corpo que pode ser flechada pelo cupido é a nuca porque não deixa cicatriz, vai direto pro coração, não causa dor nem efeitos colaterais. No resto do corpo não se faz nenhuma menção.

Adolfo ficou analisando a bunda do rapaz e decidiu que seria melhor na nádega direita, pois na esquerda havia a carteira, mas não foi discreto. O guarda deixou de olhar a porta giratória para tentar entender qual era a daquele anãozinho. O cupido assobiou para disfarçar. Alguém ficou preso na porta e o guarda se virou para ver o que acontecia. Adolfo aproveitou o momento e enfiou de qualquer jeito a flecha no rapaz.

Ele não acertou nem a nádega direita nem a nádega esquerda. A flecha se encaixou num espaço vazio entre esses dois lados.

Apesar de serem invisíveis essas tais flechas do cupido, quando não nos acertam a nuca, doem pra caramba. O grito do rapaz foi descomunal. O pulo e o local para onde foram suas mãos fez todos acreditarem que era uma seriíssima crise de hemorróidas. Coitado! A dor aguda fez com que se aliviasse ali mesmo. A calça mudou de cor.

É claro que Adolfo usou os poucos minutos que tem direito a ficar invisível e sumiu.
O rapaz foi levado ao banheiro e depois a uma salinha nas áreas internas da agência. Era preciso resolver sua situação com a roupa.

Por mais uma sorte do azar algumas pessoas entraram na salinha para prestar ajuda, inclusive a moça que precisava ser flechada junto com o rapaz. Adolfo também estava invisivelmente lá. Era a sua chance.

O cupido analisou o ambiente. Se ele conseguisse chegar ao ventilador de teto, que estava desligado, teria condições de acertar, sem opção de novo erro, os dois alvos.
Fazendo as pessoas de escada e admirando uns decotes conseguiu chegar ao alto, é certo que com certa demora por causa dos decotes (ele também adora os atributos femininos).
Pegou todas as flechas e mirou. Eles iriam viver o maior dos amores que já existiu.
Digamos que o cheiro na sala não era dos melhores. Alguns até já haviam saído devido à ânsia que sentiram...

Quando eu disse que o ventilador estava desligado você pensou “já sei alguém vai ligar o ventilador”. Não vou surpreender você. Alguém ligou o ventilador!

O coitado do Adolfo ficou rodando e rodando até cair prum lado qualquer. As flechas de amor foram sem destino acertar quem o acaso escolhesse. Virou uma bagunça de emoções.

Ouvi falar que aquele poema do Drummond que fala de um fulano que amava beltrana que amava sicrano.... foi feito depois desse episódio do cupido sem arco. Vai saber...

Há os que acreditam que algumas flechas ainda voam e acertam, erradamente, algumas nucas ou algumas bundas. O que explicaria tanto amor não correspondido. Será?

Um abraço!

Dourovale (Dorival Cardoso Valente)

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Publicado pelo(a) Wiki Repórter
Dourovale
Carapicuíba - SP



Comentários
01
Reporte abuso
marcia toledo
São Paulo 29/01/2012

Muito legal,muito criativo espero que o Adolfo me encontre e não ere o alvo rsrsrsrsrs


 
02
Reporte abuso
Egmar Felippe
São Paulo 29/01/2012

Caro Dorival, excelente texto. Coitado do Adolfo.... ah! Adolfo por que tanto trabalha e por que tanto erra....


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