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Cotidiano

O Velho e o Tempo

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Publicado em 19/01/2012 pelo(a) Wiki Repórter Márcio Ribeiro de Campos, Carapicuíba - SP



Marcas temporais. Imposição da vida a todo ser humano. Jovens, aguardem, sua vez vai chegar. - Foto: http://coisasdoeduh.blogspot.com/2010/10/ninguem-sabe.html
Acredito que o leitor de muitas letras nunca na vida deverá ter viajado num trem de subúrbio. É muito pouco provável. E isso é plausível porque o trem de subúrbio não é lugar de gente letrada, mas o contrário, as letras para esses passageiros são alguma coisa de bem distante, praticamente fora de suas possibilidades.

Nisso, inusitadamente, o trem da gente sem letra trazia um anúncio sobre um certo jornal.
Claro que o apelo do noticiário era bem popular; notícias policiais, futebol, uma pincelada ligeira e superficial na política, horóscopo...
E, frisava bem o cartaz, era "fácil de ler".

Com letras grandes, palatável, de fácil digestão leitora. É claro, leitor letrado, que a propaganda não trazia todas essas palavras com as quais eu aqui presenteio Vossa Excelência.

O anúncio era de uma pobreza lexical das mais comoventes, a verdadeira economia das letras estava ali. O jornal era, em suma, apenas um pretexto para não se passar uma viagem por demais enfadonha ou completamente entregue ao sono. Totalmente debalde, em outras palavras.

Aproveito para dizer que o trem suburbano recebeu reformas pontuais nos últimos anos. E disso gaba-se com muito alarde e estardalhaço nosso gentil governo estadual. Alarde, propaganda, discursos, olhos marejados...

Não vou te dizer que os trens que agora trafegam no subúrbio são aqueles que os europeus já não querem mais lá no antigo continente. Nem que o refugo da Europa aqui é artigo de luxo. Os anúncios oficiais hão de ofuscar a minha informação e colocar a minha reputação junto ao povo em descrédito. Tudo bem, tenho que admitir, o trem possui um ar-condicionado gostoso.

Mas, leitor, falar tudo isso sobre o trem até agora foi somente um pretexto para trazê-lo até o principal desse texto. E o capital de um escrito é aquilo que ele traz de reflexão, de pensamento, e de entrelinhas... É isso que pretendo fazer contigo, meu ilustríssimo leitor.

Num certo momento no trem vi um jovem conversando com um senhor já de idade avançada. O jovem dizia a ele que deveria descer na quarta estação após aquela em que estavam.

Quarta estação?

O velho olhou ressabiado para o jovem que percebeu a insegurança do ancião. Então repetiu o que havia dito ao homem idoso, o senhor me entendeu? Na quarta estação o senhor pode descer tranquilo.

Inseguro, o homem que não era mais jovem balançou a cabeça afirmativamente ao rapaz tentando convencê-lo de que tinha entendido.

Notório foi que o rapaz não se convenceu do entendimento do velho, e saltou do rosto do primeiro uma ligeira preocupação.

Nisso, o cheio de idade sentou-se com um pouco de dificuldade bem perto deste escritor.

Vi nos olhos dele a sua aflição e a sua súplica para que alguém o guiasse naquela empreitada de tão elevada complexidade que é descer do trem na estação desejada.

Compadeci-me do sofrimento do idoso e disse ao rapaz que primeiro o orientou:
- Deixe que eu digo a ele quando deverá descer.
- Você diz? Perguntou o rapaz trazendo alívio ao semblante.
- Digo sim. Fique tranquilo.

E assim, após minha fala, ambos jovem e idoso, olharam-me com aprovação e sentimento de gratidão.

O homem mais novo, que iria descer antes, livrara sua consciência da responsabilidade contraída com homem velho, e este achara alguém que fizesse aquilo de que ele era incapaz.

Então, com a cuca fresca, o velho acomodou-se em sua cadeira e prosseguimos viagem sem mais nos falarmos.

Ele olhava sempre para frente, sem se virar para os lados. Tinha os olhos quase estáticos, não sei se pensava ou refletia, pois sua fisionomia era a de um vegetal.

E, pelo pouco que sei da vida, esse tipo de existência não possui mundo mental.

Reparei que o homem de idade avançada usava indumentária de uma empresa de tecidos ou algo do gênero, trazia na cabeça um boné barato, e no assoalho do trem depositou uma enorme mochila.

Tinha também este homem cheio de tempo profundos vincos em sua face. Marcas temporais escavadas com a paciência daquele que impõe a decadência a toda criatura viva.

O implacável tempo marcava-lhe o rosto com a mesma crueldade com a qual apaga a beleza das mais esplêndidas criaturas.

Via-se ali na cara daquele homem crua e empiricamente o estrago feito por um longo e sofrido passar de anos.

Este mesmo homem que já estava com o tempo chegando quase a seu termo, devo acrescentar, era a expressão mor da simplicidade.

Simplório, no caso dele, era pouco. Penso eu nunca ter visto tão de perto alguém que em seu olhar denunciasse com tanta franqueza toda a sua falta de aptidão para a vida.

E assim era o velho de rosto e pescoço vincados que motivou a feitura desta matéria crônicada*.

Tão impressionante e impactante foi tudo o que vi naqueles simples pedaços de pele comidos pelo tempo, naquele olhar repleto de vazio, que não me contive enquanto não dividi minhas reflexões com o resto do mundo.

Seu olhar contemplava o nada, seu pensamento restringia-se à sua enorme pobreza de linguagem, não era capaz nem mesmo de fazer uma operação simples de saber o lugar no qual estava. Pobre homem.

Nada explica o porquê esse anônimo ainda consegue sobreviver em meio à nossa ampla complexidade, ao nosso feroz darwinismo social que, tudo bem, ainda não o matou, mas também não deixa que ele seja nada mais do que um simples utensílio que se conduz por onde se quiser, facilmente, por qualquer um.

Tenho absoluta certeza de que poderia ter mandado o velho descer na estação errada, e ele desceria candidamente, sem nada questionar e com os olhos voltados ao seu condutor cheios de segurança e gratidão.

* Cronicada. Adjetivo. Neologismo criado por mim para dizer que a matéria de cunho social e político ganhou melhor estética com sua roupagem de crônica.

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Márcio Ribeiro de Campos
Carapicuíba - SP



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