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Cotidiano

Protagonista da miséria da saúde pública na Bahia

888 acessos - 1 comentários

Publicado em 26/08/2011 pelo(a) Wiki Repórter Roberto Leal, Salvador - BA



Por: Vera Aziz

Sempre soube. Sempre ouvi, nos brados jornalísticos da imprensa sensacionalista, li nas páginas dos jornais, vi nas ruas e cantos dessa cidade que já foi bela, hospitaleira e mística.
Mas ontem e hoje, vi, vivi e senti o cheiro, a cor, o tamanho e o peso da miséria, nos pacientes de um hospital público de Salvador.

De um lado os médicos, enfermeiros, atendentes, estudantes da medicina, estagiários, multiplicando-se para cumprir a rotina dos atendimentos, vestidos de branco, de azul, de verde água, equipados de instrumentos, pranchetas e outros recursos auxiliares como a atenção a cada caso, a paciência com a dor do outro, a preocupação com a decisão a ser tomada, em fim, no exercício pleno de suas profissões. Aliás, nem tão pleno assim, se considerarmos o outro lado dessa história.

Pois bem. O outro lado, os pacientes: acomodados em macas, cadeiras, ou de pé, enfileirados num corredor aguardando ou sendo atendidos, mas todos numa única condição: sofrendo.
Eram dores explícitas, definidas ou obscuras, mas eram dores também de desespero, pelo desconforto, pela humilhação de um corredor de passagem, onde se expunham as feridas de uns, os vômitos de outros, o sangue derramado e as lágrimas de alguns e o silencio oprimindo a garganta de quem pretendesse gritar.

A própria visão do purgatório, que via em gravuras nas aulas de religião. Se não fosse meu pai um desses pacientes, pensaria estar tendo um pesadelo. Mas era real. Era um corredor da dor, do desespero, e seus personagens, protagonistas da miséria, destacados aqui, porque não poderei esquecê-los:

Uma mulher negra, pequena, parecendo moradora de rua, totalmente inchada, a ponto de passar a impressão de estar grávida de nove meses em trabalho de parto. Gritava sem poder respirar e enlouquecida arrancava o soro, se debatia na maca pedindo para ir ao banheiro. Chegam os médicos orientando que ficasse calma e explicam que irá encaminhá-la para a retirada do líquido que lhe oprimia os pulmões. Sua doença era do coração. Horas depois, ela volta aliviada e eu lhe pergunto sua idade e se não tem parentes para acompanhá-la. Ela responde: tenho 45 anos e cinco filhos!

- E nenhum pode te acompanhar? Insisto em saber.

-Todos me abandonaram depois da doença!... Respondeu convicta da sua solidão, o que me obrigou a não perguntar mais nada...

No outro lado, uma mãe enrola num cobertor a filha de 18 anos, esquálida, esverdeada, de olhos sonolentos, para protegê-la do frio que emanava de sua própria alma. Ousei saber o que tinha e a mãe me disse:- quer ser manequim! Não come, deu nisso!

Mais tarde fiquei sabendo: usuária de crak. Só a mãe que não “sabia“ da verdade, porque o corredor todo já comentava.

De repente as sirenes de uma ambulância, um corre-corre de maqueiros, de gente abrindo depressa a porta larga e adentrando o espaço, uma maca conduzindo alguém baleado e muito ensangüentado, acompanhado de policiais. Na pressa de entrar, um policial deixa cair sua arma e por pouco não tivemos um “detalhe” a mais no cenário que já era de horror!

No dia seguinte, o cadáver do bandido, passa ocultado por lonas pretas, entre viventes e sobreviventes do corredor, sem velas, sem flores sem séqüito de funeral. Apenas o silêncio estarrecido dos doentes, ante o deslizar da morte para quem abrem passagem.

Outros personagens do crime entraram baleados, metralhados e devidamente acompanhados de policiais. Soube por alguém que um deles estava algemado na própria maca.

Um homem entra com a cabeça rachada por uma garrafada. Dizem que foi sua própria mulher. Horas depois volta ao corredor para o “pós - operatório”; Acreditem! Era um rebelde, um desordeiro, que aprontou no corredor: arrancou os cateteres, expôs sua nudez, agrediu um doente que reclamou do seu desrespeito, insinuando-se para enfermeiras, acompanhantes, médicas. A mãe dele estava humilhadamente sentada próximo sem poder fazer nada, porque o mesmo recusava grosseiramente sua ajuda, ou orientação. Ninguém tomava uma atitude. Procurei um servidor, que comandava os serviços de limpeza, condução de macas, etc. E apresentei meu protesto. E o doente operado e louco, terminou sendo ameaçado de ser entregue aos policiais que faziam a vigilância dos criminosos...

Fiz uma rápida visita nas enfermarias, torcendo para encontrar uma vaga pro meu pai. Que decepção!Os leitos todos ocupados por todo tipo de paciente, com doenças de todas as espécies. Uma atendente me disse que é possível estar ali, pessoas com tuberculose e outras doenças contagiosas em fase de diagnóstico.

Esse é o retrato fiel da saúde “desumanizada“ de nossa cidade.

Apressei imediatamente a saída do meu pai, agilizando eu mesma os exames, indo e vindo ao laboratório, monitorando a chegada dos médicos, para me desvencilhar o mais rápido possível da burocracia que nos segurava ali, possibilitando a contração de outras enfermidades.

Louvo, entretanto, a dedicação dos médicos, abnegados profissionais que trabalham em condições mais do que precárias. Salvo um ou outro menos experiente, que arriscou diagnóstico duvidoso, no caso do meu pai, concluo, destacando positivamente a capacidade de superação das dificuldades dos profissionais de saúde que nos atenderam. Espero não precisar nunca mais, ou enquanto não houver mudanças drásticas na política de atendimento, de um hospital público. Em tempo, o hospital em questão foi o Ernesto Simões.

Os protagonistas da miséria permanecem anônimos, mas poderão ser qualquer um de nós, que necessite, por alguma infeliz razão, ser atendido em hospital público de Salvador.

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Publicado pelo(a) Wiki Repórter
Roberto Leal
Salvador - BA



Comentários
01
Reporte abuso
Antonio Henrique Dantas
Feira de Santana 27/08/2011

Esse inferno é vivido pelo populacho, que vota com o coração, que se deixa levar pela emoção no momento do voto.
O outro lado: os políticos feito leitões, gordos, empapados com a miséria que os alimenta. Eles passam longe destes problemas mundanos. tem sua saúde garantida pelos bananas na terra dos laranjas.


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