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Humor

"Uma noite na praça da moça"

623 acessos - 3 comentários

Publicado em 27/06/2011 pelo(a) Wiki Repórter ADhemyr, SÃO PAULO - SP



Publicado no Jornal Notícias (www.jornalnoticias.com.br)

Primeiro ele quis saber o porquê do nome “Praça da Moça”. Eu não soube responder. Depois disse que a outra praça próxima, denominada Presidente Castelo Branco, deveria isto sim, chamar “Praça Camilo Castelo Branco”. Aí fui eu que perguntei por qual motivo. Disse-me gostar muito do Escritor português.

Diadema, na grande São Paulo, que já tinha sido considerada uma das cidades mais violentas do estado, tinha saído há alguns anos desta estarrecedora estatística. Não que fosse pacata agora. Uma região com a maior densidade demográfica do Brasil não podia ser exatamente isso. Bastava que se sentasse num dos bancos das praças ou dos pontos de ônibus, que logo apareciam os tipos... E eu, naquele começo de noite, cerca de 20 horas, ali me pusera, cansado, já que trabalhava na rua. Acabara a pouco de comer meia dúzia de esfiha, na Esfiha Chic, que faz a melhor esfiha da Região Metropolitana de São Paulo.

Ora, agora eu queria descansar um pouco mais, fazer a refeição assentar no bucho, até poder ir para casa.

E desta feita me apareceu aquele sujeito que logo perguntou de onde eu era. Se nas cidades do interior me perguntam “de que família sou”, aqui me perguntavam de onde eu tinha vindo... Aí, conterrâneo ou não, começava o prosear... Chamar alguém de conterrâneo nesta região é uma forma de “tentar aproximação”, uma forma afetuosa até certo ponto... Intimista, talvez.
Ele perscrutou tudo ao redor de si. Olhou-me com jeito espantado. E, atônito, quis saber:
---Oxe! Nesta Praça da Moça não tem nenhuma estátua...?

Pensei que fosse perguntar por que não tinha sanitário público. E eu não saberia responder... Quanto à estátua, disse-lhe que não; que de fato nunca vira estátua por ali...

Ele franziu as sobrancelhas. Coçou o queixo de barbicha rala, enquanto eu o observava. Tinha os cabelos grisalhos precocemente, já que afiançou ter tão somente 35 anos. Mas vá lá... Não era isso que o atormentava, logo deduzi. E disse, olhando-me de viés:

---Meu sonho é virar uma estátua! Grandona!...

---Ah?!... --- Fiz eu, sempre pronto a ouvir coisas estranhas. Mas com esta não contava, não...
---Virar estátua...? O senhor?! Estranho este seu desejo... --- tartamudeei.

---Me vejo plantado no meio desta praça, e o povo passando, me admirando; meu nome escrito até em letras garrafais...

---Pois eu nunca pensei nisso... Nem pensei que alguém pensasse... --- Disse eu, assombrado.
---Eu penso, conterrâneo... É meu sonho. Ser estátua! Grandona! --- frisou sério, sereno e sucinto.
Fiquei pensando quem ele seria enfim; o que deveria fazer para almejar tanto ser uma estátua, num dia...

Notei seu traje despojado, bem simples. Tinha até alguns remendos. O que não é demérito nenhum a qualquer trabalhador. Mas até aí... a querer “virar” estátua nalgum dia... Não devia ser lá homem de posses, conclui. Mas falava corretamente. E pelo jeito de falar podemos saber muito de uma pessoa. Ele lia Camilo Castelo Branco. Alguma cultura tinha. Ou muita! Mas... Esta de almejar virar estátua...

De repente colocou o seguinte tema:

---Sabia que o escritor português Camilo Castelo Branco cometeu suicídio...?

---Sim.

---E sabia que ele disse que “poderia voltar” no século XXI, ele que viveu no século XIX...!?
---Bem... Digamos que foi apenas uma alusão, num dos prefácios de uma das edições do “Amor de Perdição”... --- Tentei elucidar.

Aí, irritado, ele se levantou!... Desamarrotou sua roupa remendada. Pegou um carrinho cheio de papelão, que eu não supunha que fosse dele, e foi saindo... De súbito parou. Olhou para mim, que o olhava cheio de perguntas. Mas que não ousava fazê-las. De novo coçou a barbicha rala e disse, como se pensando só consigo mesmo:

---Um dia hei de virar estátua! Pois ainda saberão que eu sou o Camilo Castelo Branco, que voltou no século XXI! Como foi previsto por “mim mesmo”...

E sem olhar-me, saiu puxando seu carrinho lotado de papelão, subindo a Rua Graciosa... Pensei segui-lo.

Mas, estarrecido, lembrei-me que esta rua tanto poderia levar à Rua Manoel da Nóbrega, como à Rua do Tanque, mas também, e principalmente, na Alameda da Saudade, a do no cemitério...
Desisti então de segui-lo...

Petrificado, fiquei ali, num gélido banco da Praça da Moça. Feito uma estátua. No começo de uma noite de um dia que acabara, e do qual jamais esqueci: sexta-feira, 13 de agosto de 2.004.


ADhemyr Fortunatto
Escritor
(Autor de “Toda Feminista Tem Um Machão no Coração)”.
Jornalista (Mtb 60.511/SP)
[email protected]

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Publicado pelo(a) Wiki Repórter
ADhemyr
SÃO PAULO - SP



Comentários
01
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joseane dos santos de araujo
camaçari ba 07/08/2011

proucuro .sartunino teixeira de araujo.filho de cerila maria teixeira de araujo.desaparesido a 26 anos


 
02
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Miriam Sales Oliveira
Salvador 19/07/2011

Que surpresa boa vê-lo por aqui,colega.
Tb deixo minhas mal traçadas nesse espaço.
Como sempre ,seus textos de humor são demais! Abç


 
03
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Rodrigo
Sertãozinho 29/06/2011

Cada uma hein :-), será que ele mora no cemitério?rsrsrs.
Muito bom seu texto!!!!!

Abraços! Rodrigo


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